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sábado, 10 de maio de 2014

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O ano é da agricultura familiar, Dilma

Dilma demorou, mas recebeu MST (foto: Agência Brasil)
De Curitiba
 
A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (conhecida como FAO, na sigla em inglês) estabeleceu 2014 como o ano internacional da agricultura familiar.

O objetivo, diz a FAO, “é reposicionar a agricultura familiar no centro das políticas agrícolas, ambientais e sociais nas agendas nacionais, identificando lacunas e oportunidades para promover uma mudança rumo a um desenvolvimento mais equitativo e equilibrado” (ver aqui).

Carece de avisar a presidenta Dilma Rousseff e integrantes de seu governo.

Porque, em vez de ser colocada no “centro das políticas públicas”, a agricultura familiar tem sido alijada pelo governo nos últimos três.

O VI Congresso Nacional do MST, realizado nesta semana em Brasília, expôs isso tim-tim por tim-tim.

E nessa mesma semana, a própria presidenta Dilma deu mostras de que está menos envolvida com a agricultura familiar e mais comprometida com o principal contraponto desta, o agronegócio.

Na terça-feira, dia 11, Dilma subiu numa dessas máquinas agrícolas para dar largada à colheita da safra de grãos 2013/2014; discursou, posou para fotos ao lado de ruralistas, entre eles a serelepe godiva do latifúndio. Enalteceu o agronegócio pelo twitter e no Blog do Planalto.

Enquanto isso, ocorria na capital da República o encontro do MST, um dos movimentos sociais mais respeitados em todo o mundo (só não sabe disso quem apenas vê Globo e lê Veja e assemelhados).

Só na quinta-feira - depois que, na véspera, os trabalhadores rurais sem-terra saíram em passeata pela Esplanada dos Ministérios, se posicionaram na Praça dos Três Poderes, e foram reprimidos pela polícia distrital - é que Dilma resolveu se aproximar.

Recebeu, simpaticamente, representantes do MST, pedindo-lhes que "passassem tudo o que puderem passar de informações sobre o que está errado" para "fazer as mudanças" (confira aqui). Ora, presidenta, há três anos o MST tenta lhe entregar pessoalmente essa “lista do que está errado”!

Apesar da receptividade, da promessa de tomada de decisões, pareceu protocolar a acolhida ao MST no Palácio do Planalto. Não se viu nos canais oficiais de comunicação da Presidência da República nenhuma fala da própria presidenta. Em seu twitter, nenhum piu.

O pior é que, na atual conjuntura político-eleitoral, Tia Dilma ainda é a opção que mais pode oferecer algum alento à agricultura familiar, camponesa. Dos demais postulantes ao governo, a dupla Eduardo-Marina cada vez mais se mexe e se alia à direita neoliberal; Aécio Neves, este já está pra lá faz tempo.

Mesmo assim, Tia Dilma, acorda!
 
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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Dilma terá de correr para escapar da zona do rebaixamento em reforma agrária

Protesto dos sem-terra nesta quinta, em Aracaju (foto: MST)

De Curitiba

A presidenta Dilma Rousseff lançou nesta quinta-feira, dia 17, um plano de fomento à agroecologia e, segundo a Rede Brasil Atual, parece ter feito um mea-culpa sobre a pífia dedicação de seu governo ao tema da reforma agrária.

Prometeu, até o final do ano, publicar 100 decretos de desapropriação de terras improdutivas para destinar a quem quer e precisa de área para plantar e, da roça, tirar o sustento.

Dilma precisa correr contra o tempo para sair da zona do rebaixamento entre os governos que menos destinaram terras para a reforma agrária.

Até o Estadão, assumidamente pouco afeito às causas dos sem-terra, não deixa de destacar – nesta matéria de Roldão Arruda, reproduzida pelo site do MST – o desempenho série D do governo Dilma na questão agrária.

Embora prevista na Constituição de 1988, cujos 25 anos foram recém-completados, a reforma agrária é um passivo secular que os governos, quase sempre vinculados ao interesse do capital, insistem em ignorar.

(João Goulart ousou enfrentar o problema e, por essas outras, foi deposto pelo poder econômico)

É evidente que a reforma agrária é a solução, na raiz, para boa parte dos problemas da sociedade brasileira.

A reforma agrária combate o êxodo rural que ocasiona o inchaço das grandes cidades que por sua vez acentua a exclusão, a qual gera violência. A reforma agrária garante a expansão da produção de alimentos em modelo independente das regras de mercado do agronegócio. Maior oferta de alimentos é comida a preço mais baixo – é mais gente alimentada, é menor pressão inflacionária.

Enfim, os argumentos em defesa da reforma agrária estão por aí em livros e teses, incontestes.

Voltemos à matéria do Estadão.

“Do ponto de vista da redistribuição de terras”, começa o texto, “2013 caminha para ser o pior ano da reforma agrária desde o início do período da redemocratização, em 1985. Faltando menos de três meses para o fechamento das atividades do ano, a presidente Dilma Rousseff ainda não assinou nenhum decreto de desapropriação de imóvel rural, por interesse social, destinando-o para a criação de assentamentos rurais”.

Em seguida a matéria aponta o inacreditável – e inadmissível: Dilma segue rumo à triste marca de “superar” o governo de Fernando Collor de Melo em inércia no assunto.

Da coordenação nacional do MST, Alexandre Conceição foi taxativo ao repórter: “O governo Dilma é refém do agronegócio”.

Deplorável, todavia irrefutável, diagnóstico.

Basta ver a senadora godiva do latifúndio toda serelepe na defesa do governo.

Basta ver a Caixa, em propaganda há algumas semanas no ar, estrelada pela espetacular Paula Fernandes e por Almir Sater, se orgulhando de ser também “o banco do agronegócio”.

O pior é que tão cedo não seremos libertados.

Desses ditos no páreo na disputa da Presidência da República, não tem um – nem Marina Silva, nem Eduardo Campos, muito menos Serra ou Aécio Neves – com coragem para tentar o resgate. Pelo contrário, estão comprometidos com os sequestradores até o pescoço.

Tá tudo nas cartas.
 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O Brasil, que ainda tem sede, exporta água

Transposição do São Francisco: promessa de água no sertão (foto: Codevasf)
De Curitiba

Embora o Brasil seja o país do mundo com maior fartura de água, a gente sabe que a distribuição dos recursos hídricos é desigual - a escassez é, por exemplo, marca do sertão nordestino.

Mas, mesmo com um Brasil que ainda passa sede, o país se dá ao luxo de exportar água.

A exportação é indireta ou virtual, conforme explica esta (migre.me/g0lrg) excelente reportagem da Unesp Ciência, baseada numa pesquisa coordenada pelo geógrafo José Gilberto de Souza, do campus da universidade estadual paulista em Rio Claro.

A água que a gente manda - anualmente, o equivalente ao que cada brasileiro consome durante 50 dias, segundo a pesquisa - vai junto com as commodities do agonegócio, em especial suco de laranja, açúcar e etanol.

É o "agro-hidronegócio", nas palavras de outro geógrafo citado na matéria, Antônio Thomaz Júnior (da Unesp em Presidente Prudente), que estuda conflitos agrários que têm o acesso a água como pano de fundo.

"A maior parte das pessoas só está monitorando a disputa pela terra, e esquecendo da água", alerta Thomaz Júnior.

Enfim, mais detalhes estão na matéria, linkada acima.

O que o material nos mostra é que a defesa do meio ambiente é muito mais do que a separação adequada do lixo, o fechar corretamente a torneira, ou o apagar das luzes do planeta uma vez por ano.

A defesa do meio ambiente passa pela luta contra o modelo econômico aí posto.

O agronegócio é nocivo à sustentabilidade dos recursos naturais e não gera comida nem empregos. Produz commodities e enche o bolso de poucos.

O que põe almoço e janta na nossa mesa, sem detonar terra e rios, é  a agricultura familiar, que dá oportunidade de trabalho e renda à gente do campo.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Sobre a meia coragem

Exploradores de trabalho escravo são poupados (foto: MTE)
De Curitiba

Dia destes ouvi comentário de que determinada figura que apresenta certo programa de televisão "tem coragem".

Porque detona político, questiona a segurança pública, critica a impunidade, fala da falta de leis, pega pesado com criminosos.

Tudo assim, generalizado. Bravo, com bravatas, mas generalizadas.

Argumentei, no entanto, que para isso não é preciso muita coragem não. É preciso talento e competência para utilizar as palavras certas, num tom convincente.

Tentei mostrar que, na verdade, a crítica generalizada, por mais pesada que seja, pouco expõe quem realmente deve na praça e deve ser exposto.

Dizer que "os políticos não fazem nada, só querem roubar" não atinge os que "não fazem nada e só querem roubar".

Pior: só faz esconder esses "que não fazem nada e só querem roubar".

Porque coloca todo mundo no mesmo balaio: os que fazem muito, inclusive fazem pelos que nada ou pouco fazem, e os que não fazem nada "ou só roubam".

Fica todo mundo rotulado como pilantra. Quem não é, fica prejudicado com a pecha. Quem é pilantra, nem se importa: afinal, como todo mundo acha que todos são pilantras, ele pode pilantrar à vontade que outros vão levar a culpa também.

Ultimamente, a coragem maior não é a de criticar, é a de enaltecer. Ou, se for criticar, que seja a crítica pontuada, especificada, nominada.

Um exemplo: semana passada, no interior de Goiás dezenas de crianças foram intoxicadas depois que um avião que pulveriza lavouras despejou agrotóxico no pátio de uma escola.

Não vi, li ou ouvi os tais corajosos darem nome aos bois: identificarem o dono do latifúndio, mostrarem que a prática é recorrente no agronegócio monocultor, explicarem (já que gostam tanto de falar dos "políticos") que no Congresso Nacional existe uma bancada ruralista forte que resiste a qualquer medida que restrinja essas pulverizações...

Nada.

É assim também quando a fiscalização flagra trabalho escravo em fazendas ou confecções, fato cada vez mais recorrente.

Dos ditos corajosos não se vê a exposição dos responsáveis pela exploração. Não se ouvem explosões contra as grifes ou as transnacionais do agronegócio que lucram com a exploração da mão de obra.

Agora, quando o assunto é redução da maioridade penal... ai os discursos, estes sim, são carregados em tinta, bradados, inflamados... Que coragem!