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quarta-feira, 18 de abril de 2012

De Curitiba
 
Ao se deparar com esta capa do Jornal do Brasil, de 18 de abril de 1996, um dia depois do Massacre de Eldorado dos Carajás, a gente não tem dúvidas de quanto a mídia comercial brasileira acentuou sua ortodoxia de uns tempos para cá.

Porque, se aquela violência tivesse ocorrido hoje, certamente uma capa como esta não sairia.

Temos um episódio recente, bem parecido, a desocupação na favela Pinheirinho, em São José dos Campos, sobre o qual, apesar da evidente truculência da Polícia Militar e do Governo de São Paulo, a repercussão dos jornalões e revistonas em nada lembra a denúncia contra a injustiça social e covardia que fez a capa de 16 anos atrás do velho JB.

Fosse hoje, e as manchetes e chamadas dos jornalões e revistonas estariam cheias de ponderações, sempre a favor, claro, do poder constituído – poder econômico, fundamentalmente; eventualmente, do poder político.

Foi assim, repita-se, com o também trágico episódio de Pinheirinho.

Está sendo assim com a decisão da presidenta Cristina Fernandez Kirchner em nacionalizar o petróleo argentino. A repercussão se dá em torno do que dizem multinacionais e governos europeus, ou analistas alinhados com o pensamento do Hemisfério Norte. Em torno, pois, do poder econômico constituído.

Está a reprisar no Canal Viva, emissora por assinatura das Organizações Globo, a novela Roque Santeiro, do comunista Dias Gomes. A novela foi ao ar em 1985, na transição da Ditadura Militar para a Nova República, quando a repressão e a censura ainda eram iminentes.

Pois a novela aborda questões que, mais de 25 anos depois, parecem ousadas para os padrões ideológicos dos meios de comunicação comerciais atualmente. Se Roque Santeiro não foi censurada, àquela vez, pelos organismos governamentais, agora em 2012 seria tesourada pela própria emissora.

A novela denuncia o latifúndio, valorizando a mobilização popular de sem-terra e sem-teto; expõe o preconceito racial e social, contando que ele existia de forma velada; critica a globalização, mostrando o desespero do comerciante local com a chegada de uma grande magazine na cidade. Temas que, na Globo e assemelhadas, cada vez mais são rechaçados.
 
A história do país mostra que as empresas de comunicação sempre se posicionaram a favor do poder do capital e dos interesses econômicos estrangeiros. Foram contra o governo nacionalista de Getúlio Vargas, o desenvolvimentismo de JK, o trabalhismo de João Goulart. Apoiaram o golpe militar de 1964. Deram todo o respaldo ao neoliberalismo e sua privataria. Mas, ainda assim, era possível identificar certa pluralidade. Hoje, o contraditório, quando aparece, é desqualificado por atencipação.

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